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VIEIRA DA SILVA ANTECIPA CRISE “MUITO GRANDE” E “PARTICULARMENTE VIOLENTA EM DESEMPREGO”
2020-06-22
EXPRESSO
Liliana Coelho
22.06.2020 às 12h19
 

Em entrevista ao “Público”, o ex-ministro do Trabalho e da Segurança Social admite que a crise no pós-pandemia tem um potencial de “efeitos assimétricos” e que o teletrabalho não irá revolucionar o mercado de trabalho.
 
O antigo ministro Vieira da Silva não tem dúvidas: a crise económica e social decorrente da Covid-19 não será branda e há sectores importantes para o país, como o turismo, em que a retoma poderá ser mais lenta.
 
"É uma crise muito grande. Vai ser particularmente violenta em desemprego. Parecia à primeira vista que atingia todos da mesma forma, mas tem um potencial de efeitos assimétricos", afirma o ex-ministro do Trabalho e da Segurança Social, em entrevista ao “Público”.
 
Segundo o antigo governante, ainda é difícil antecipar ao certo os efeitos, uma vez que estamos perante uma crise inédita, mas certamente serão graves depois de um período de paralisia da economia, que ficou em "coma induzido", e da queda da produção e da procura a nível global. Já as respostas não dependerão de um país, "muito menos de um país como Portugal". "Depende de um conjunto de atores, nomeadamente da UE", sublinha.
 
Vieira da Silva manifesta-se sobretudo preocupado com o impacto em sectores fundamentais para o país como o turismo e outras atividades relacionadas como o transporte aéreo e a restauração. "Os efeitos vão depender de como a liberdade de circulação na Europa e no mundo vai ser reposta. E esse é um fator de preocupação", admite.
 
Questionado sobre se sente responsabilidade por não ter conseguido garantir mais proteção social aos trabalhadores informais, enquanto esteve no Governo, Vieira da Silva lamenta que a crise tenha chegado tão cedo, uma vez que o anterior executivo lançou uma reforma do sistema de proteção social dos trabalhadores independentes "que, se já estivesse mais madura, tinha contribuído para uma maior proteção".
 
Sobre o regime de lay-off, o antigo ministro insiste que se trata de uma "medida necessariamente temporária", mas que no futuro terão que ser desenvolvidos outros apoios. "A solução fundamental é a retoma da economia. Não há nenhuma varinha mágica que, fora da recuperação económica, garanta que as pessoas têm o mesmo nível de bem-estar e rendimentos", explica.
 
Vieira da Silva defende ainda que o país já tem uma parte do imposto sobre o rendimento das empresas que é dirigido para a Segurança Social. No entanto, poderá ir mais longe com vista a diminuir as taxas sobre o fator trabalho e aumentar a componente do lado dos impostos sobre os lucros.
 
Em relação ao teletrabalho, Vieira da Silva diz acreditar não irá revolucionar o mercado laboral, apesar de ter trazido novas ferramentas. "Penso que talvez se valorize em excesso a possibilidade da dimensão que relações à distância podem ter. O contacto humano é um fator de valorização da criação coletiva. Há riscos, porque trabalhamos todos de forma mais isolada. depois, pode ser um fator de aprofundamento das desigualdade", conclui.
 
 
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Fotografia: Nuno Fox