Quinta-Feira, 02 de Julho de 2020

CONTACTOS

STEC
INFORMAÇÃO STEC
CGD FAZ CERCO A GRUPO QUE LHE DEVE €307 MILHÕES E EMPURRA MAIS DUAS IMOBILIÁRIAS PARA A INSOLVÊNCIA
2019-12-11
EXPRESSO
Diogo Cavaleiro
11/12/2019 - 10:37
 

A Birchview está no topo dos créditos problemáticos da Caixa Geral de Depósitos. Depois de ter pedido a insolvência da construtora, o banco público quis dar o mesmo destino às suas irmãs, a Bridgedown e a Chapelmoor. Tudo empresas com sede em Portugal financiadas pela entidade bancária
 
Depois de ter mandado para a insolvência da Birchview, a principal empresa construtora do empreendimento The Keys na zona de Loulé, a Caixa Geral de Depósitos (CGD) empurrou outras duas imobiliárias do grupo para a insolvência. Em causa estão dívidas ao banco público em torno de 307 milhões de euros, ainda que, na sua maioria, o valor já deva estar reconhecido como perdido.
 
No final de novembro, a CGD entrou com dois processos no juízo de comércio de Lisboa em que requereu a insolvência de duas empresas: a Bridgedown Imobiliária e a Chapelmoor Imobiliária. São duas empresas sediadas em Portugal a quem emprestou milhões para um fim, mas em que o financiamento acabou por reverter para outro. E que não foi recuperado até aqui.
 
As duas empresas são do grupo QDL, centrado na construção e promoção imobiliária. Este universo detinha a Birchview, que surge na lista dos principais devedores da CGD, e outras duas outras sociedades, Bridgedown e Chapelmoor.
 
As três empresas eram as donas dos lotes para construção imobiliária, na zona da Quinta do Lago, Loulé, Algarve. Mas o empreendimento em causa acabou por ainda não ter atividade.
 
A Birchview já está a caminho do seu fim desde 2016, mas só este ano se deu a sua sentença de insolvência. “A Birchview foi considerada insolvente há poucos meses. Só depois disso é que avançámos para a Bridgedown e da Chapelmoor”, responde a instituição financeira liderada por Paulo Macedo ao Expresso. “A razão foi estratégica. As outras não eram prioritárias em termos estratégicos para a defesa dos nossos interesses”, acrescenta. Mesmo assim, agora dá-se o requerimento das respetivas insolvências.
 
 
Sem licenciamento, sem vendas
 
Na década passada, mais precisamente em 2007, ano em que o banco estava na liderança de Carlos Santos Ferreira, as empresas pediram financiamentos à CGD. Só que, apesar de três projetos para cada uma das empresas detentoras dos lotes, o grupo apenas quis avançar para a construção de um deles, desenvolvido pela Birchview.
 
O relato é feito no relatório do administrador de insolvência, Jorge Calvete, consultado pelo Expresso, e que mostra que “todos os financiamentos concedidos às sociedades irmãs (a saber, a devedora [Birchview], a Bridgedown e Chapelmoor) foram atribuídos contra a constituição de hipoteca sobre o mesmo imóvel - neste caso, o empreendimento - e ainda contra a prestação de garantais pessoais pela devedora”.
 
Os outros ativos adquiridos pelas duas sociedades agora atiradas para a insolvência só seriam viabilizados quando já houvesse vendas de 75% do empreendimento The Keys. Nunca chegou a acontecer. Não foi licenciado. E, portanto, não se puderam concretizar comercializações de imóveis.
 
Em maio de 2016, depois de anos de crise no imobiliário, a Birchview deixou de pagar a sua dívida perante o banco público. Pouco depois, pediu a entrada num processo especial de revitalização (PER), para negociar a sua dívida. A CGD, com a palavra praticamente única, rejeitou. A solução foi a insolvência da Birchview que, contudo, só este ano foi decretada formalmente, segundo a instituição bancária. Mark William Lenherr e Carlos Olavo Mesquita da Silva são os administradores das empresas.
 
Segundo a lista de créditos reconhecidos na insolvência, a Caixa Geral de Depósitos tinha um crédito sobre a Birchview de 307,5 milhões de euros, entre aberturas de crédito e garantias bancárias. Aqui, estão os cerca de 7 milhões relativos a empréstimo e aval da Bridgedown e outros 7 milhões da Chapelmoor. O banco representa 90% da dívida total do grupo da Birchview, que ascende a 339 milhões. O valor já estará reconhecido como perdido, já que, com a capitalização de 2017, o banco conseguiu limpar a grande maioria dos créditos tóxicos herdados do passado.
 
Segundo a versão preliminar da auditoria, a EY considerou que houve um “aumento grave de exposição de risco por parte da CGD” logo no momento da concessão inicial. Desde logo porque o banco público assumiu o financiamento sozinho, sem outro banco parceiro. Depois, houve reestruturações e mexidas nos empréstimos, também com críticas levantadas pela autora.

TopoIr para lista

12_11_expresso
 
Paulo Macedo, presidente da comissão executiva da CGD
 
Fotografia: Rui Farinha / NFACTOS